Em 2003 o Diretor-presidente do Le Monde Diplomatique, Ignacio Ramonet escreveu sobre um quinto poder que clamava por ser criado.
Este, surgiria para controlar o poder da imprensa e das mídias (o quarto poder) que muitas vezes “se junta aos outros poderes existentes (político e econômico) para esmagar o cidadão…”

Vamos aos fatos:
Esta semana a pauta que mais gerou comentários entre os comunicadores foi a criação e a maneira com que vem sendo usado o Blog da Petrobrás. Para quem não sabe, a Petrobrás está sendo investigada por uma CPI. Para quem sabia, a empresa resolveu criar um blog para apresentar: “… fatos e dados recentes da Petrobras e o posicionamento da empresa sobre as questões relativas à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI).”
O problema é que a imprensa não gostou e, como constitui o “quarto poder”, resolveu acusar a Petrobrás de estar desrespeitando o trabalho da imprensa. Vejamos alguns pontos:
Estadão: Para a Associação Nacional de Jornais (ANJ), a estatal quebra o caráter confidencial que deve ter a correspondência entre os jornalistas e as fontes oficiais da empresa, revelando “canhestra tentativa de intimidar” a imprensa.
Associação Nacional dos Jornais: “É uma falta de ética total porque você está fazendo com que todos os demais concorrentes da imprensa tomem antecipadamente conhecimento de uma determinada reportagem de um determinado órgão de imprensa”, diz o presidente da ANJ, Júlio césar Mesquita. – Pelo jeito, para ele a informação é um produto comercial digno de concorrência e não um direito do cidadão.
Associação Brasileira de Imprensa (ABI): “a companhia não está violando o sigilo da correspondência eletrônica dos jornais e nem dos jornalistas. ‘Não entendo isso como vazamento de informações. A Petrobras é uma empresa importante demais para o país, e tudo que diz respeito ao seu funcionamento, ao seu desempenho, tem que ser objeto de informação ao conjunto da sociedade’, afirma o Presidente da ABI Maurício Azêdo.
Prof. Dr. de Comunicação Wilson Bueno: “A Petrobras tem o direito de ter um blog, de twittar, de fazer o que quiser com a sua comunicação. Se os jornalistas acham que ela os anda traindo ao publicar respostas às suas perguntas antes da finalização da reportagem, que busquem alternativas para driblar esta guerra da informação. E se julgarem que isso fere a ética que botem a boca no trombone e convidem todos nós para debatermos. Só não podem ficar choramingando enquanto a Petrobras dá as cartas.”
Existem outros exemplos, uma boa “googlada” pode resolver. Mas aproveitando a citação do professor Wilson Bueno, queria ressaltar a idéia de que a comunicação está se dispondo de uma nova maneira e todos precisamos nos adaptar.
A web nos faz repensar a comunicação
Não quero manter o foco na idéia de que se é certo ou não o que a Petrobrás está fazendo, mas sim na solução que a empresa apresentou para se comunicar com a sociedade.
Como comentou Marcelo Tas: “A revolução digital pulverizou o monopólio da publicação dos fatos e suas versões…” Por isso o jornalismo ainda tem muito espaço para trabalhar com exclusividade sim. Mas vai precisar repensar a maneira como essas informações são comercializadas e assim, a parcialidade dos veículos será questionada.
Em seu livro “As novas regras para Marketing e Relações Públicas” David Meerman deixa claro o papel que as profissões têm neste novo cenário, elas trabalham muito mais em conjunto do que em outros tempos. A equipe que cuida do blog da Petrobras não é só de jornalistas, segundo o Blog da Companhia quem está por trás do instrumento é uma equipe de comunicação institucional.
Falando um pouco sobre as novas regras que Meerman escreve, uma mudança no exercício da atividade é determinante. Com o crescimento e desenvolvimento da comunicação online e da web interativa, os esforços de RP não focam mais a imprensa, a mídia ou os grandes grupos da sociedade.
Agora, mais do que nunca o foco de comunicação é o consumidor final, são as pessoas que andam na rua e são impactadas por uma empresa e eventualmente causam impacto sobre outras. Apesar de o presidente da Petrobras ter dito: ”Nós vamos revolucionar o jornalismo brasileiro”, acredito que a Petrobras está mais focada em esclarecer os brasileiros sobre a verdade, do que em ficar colocando a imprensa em um pedestal. A Agência de Notícias Petrobras já faz isto.
- Apenas em Maio, cerca de 35 milhões de pessoas acessaram a internet no Brasil em casa ou no trabalho.
- No mundo todo, a chamada “era pontocom” existe há 20 anos.
- 80% dos internautas brasileiros visitaram redes de relacionamentos e blogs em 2008.
São dados que mostram que a sociedade esta mudando, então porque não mudar a forma de comunicar com ela? Nós precisamos aprender a lidar com o consumidor 2.0. É uma pena que as universidades ainda não estejam preparadas para ensinar essa nova realidade aos alunos, como comentou Beth Saad. Na verdade os alunos é que estão ensinando os professores.
Acredito que a Petrobras causou uma polêmica desnecessária publicando o conteúdo das entrevistas antes que elas fossem publicadas. Thiane Loureiro falou bem quando disse que, é importante “continuar mantendo o bom relacionamento com os jornalistas, fornecendo-lhe informações um a um, concedendo entrevistas e tudo mais que se faz num trabalho de assessoria de imprensa.”
Mas convido a todos a acompanhar o decorrer dos fatos, pode ser um modelo a seguir. Acho que além da discussão sobre o que infringe ou não a profissão é importante sabermos o resultado da CPI.
As tecnologias vão ficar obsoletas, os blogs vão mudar suas características, os comerciais de TV e os jornais também. O que precisamos lembrar, como disse o diretor presidente do Le Monde Diplomatique, é que o quinto poder precisa se fortalecer. Os cidadãos comuns precisam reivindicar cada vez mais o direito de saber a verdade sobre as empresas, principalmente empresas com o porte da Petrobras, e as empresas precisam se preparar para isto.
O Blog da Petrobras gera uma discussão bastante promissora sobre informação, democratização e o papel das organizações nesse contexto. Durante muitos anos, a imprensa tradicional (aqui , não me refiro aos meios em si, mas às organizações gestoras dos veículos) mostrou-se imbuída do estandarte de defensora do interesse público, legionária da verdade, em uma postura mítica e por vezes sinalizada como heróica. Ao assumirmos que acesso à informação completa é requisito paera cidadania, os veículos tradicionais, por consegüinte, ganhavam uma posição de formadores de cidadãos.
Entretanto, a defesa por um acesso irrestrito à informação conviveu, de modo incoerente, com os filtros editoriais inerentes ao modo como a imprensa se constituiu – seja pelo método jornalístico adotado, seja pela estrutura e interesses empresariais do próprio veículo. Em momentos críticos da história do país, em que todos os canais eram ferozmente obstruídos ou redirecionados pela censura, o fortalecimento de empresas jornalísticas e a resistência de várias delas contribuiu sobremaneira para a sociedade, clareando as penumbras informacionais que sufocavam qualquer lampejo democrático. Contudo, em um mundo em que as tecnologias digitais permitiram a multiplicação de acesso a vozes diversas, tanto os públicos quanto aqueles que chamamdos tradicionalmente de fontes ganharam espaços para produção e difusão de seus próprios conteúdos, sem intermediação direta de mídias consolidadas. Neste ambiente múltiplo, soa incoerente pensar que democratizar a informação significa preservar o papel exclusivo dos veículos tradicionais em mediar os temas de interesse público.
Em uma analogia simples – excetuando-se outras variáveis – pode ser observado o fenômeno da Wikipedia em relação às enciclopédias tradicionais, no que se refere ao papel de mediação do conhecimento e credibilidade. Uma primeira reação ao modelo colaborativo foi justamente questionar qual a confiabilidade de algo que poderia ser aletrado por qualquer um, a qualquer momento? Entretanto, o grande ganho da Wiki foi justamente mostrar que é justamente o fato de seu conteúdo estar aberto a tudo e a todos e sob vigilância constante, que dá a ela credibilidade e diversidade maiores que qualquer enciclopédia. Milhares de fontes especializadas ao redor do mundo jamais teriam a oportunidade de contribuir com um verbete da Barsa podem corrigir, em tempo real, possíveis equívocos e contribuir com informações novas e constantes.
Quando a Petrobras, empresa de maior reputação do país (segundo estudo do Reputation Institute – 2009), busca uma maneira de apresentar seus pontos de vista diretamente a seus públicos e dialogar com eles em um mesmo espaço, relativiza o lugar (antes intransponível) de mediador universal, ocupado pela da imprensa. Esta relativização, em si, não é nova. Acontece diariamente, quando um simples cidadão, com uma câmera de aparelho celular, registra uma cena urbana e “posta” em um portal colaborativo de vídeos ou seu próprio blog, com seus comentários. Entretanto, o fato de a maior empresa do país – e, por conseguinte, objeto de grande interesse público por informação em diversos temas – adotar uma nova postura consolida essa situação. Isso gera grande desconforto nos veículos que, inclusive, têm nestas informações a base de seu trabalho para várias editorias e, do ponto de vista empresarial, uma parte essencial da cadeia de valor de seu negócio.
Cabe alertar que, embora a discussão da relação fonte-veículo tenha ganhado grande repercusão, deve-se ampliar o debate para observarmos as consequencias e possibilidades destas novas posturas para aqueles que são o fundamento de todas as discussões: os públicos. Afinal, é em nome do interesse deles que a imprensa, a Petrobras e todas as organizações justificam sua atuação. Quanto mais diversas forem as vozes e os meios para que sejam alcançadas, maior possibilidade de realmente falarmos e, talvez atingirmos uma democratização séria e efetiva da informação.